Renda fixa ou ações: o que fazer com a Selic em queda?

Renda fixa ou ações com a Selic em queda? Entenda o papel de cada investimento e como avaliar ações para uma carteira de longo prazo.

ANÁLISE TÉCNICABUY AND HOLD

Alexandre Giacon

8/19/20268 min read

Renda fixa ou ações com a Selic em queda
Renda fixa ou ações com a Selic em queda

Renda fixa ou ações: o que fazer com a Selic em queda?

Quando a Selic começa a cair, uma dúvida volta a aparecer entre os investidores:

É hora de retirar o dinheiro da renda fixa e investir em ações?

Em junho de 2026, o Copom reduziu a taxa Selic para 14,25% ao ano. Apesar do início do ciclo de queda, os juros continuam elevados, mantendo diversos investimentos de renda fixa atrativos. (Banco Central do Brasil)

Isso significa que a renda fixa ainda é melhor do que as ações?

Não necessariamente.

A decisão não deveria ser tratada como uma disputa entre duas classes de ativos. Renda fixa e ações possuem características, riscos e funções diferentes dentro de uma carteira.

A pergunta mais útil é:

Como combinar segurança, liquidez e crescimento patrimonial de acordo com meus objetivos?

O que acontece com a renda fixa quando a Selic cai?

A Selic é a taxa básica de juros da economia brasileira e influencia a remuneração de diversos investimentos, especialmente aqueles ligados ao CDI ou à própria taxa básica.

Quando a Selic está elevada, títulos pós-fixados podem oferecer rentabilidade nominal atrativa com menor oscilação do que as ações.

Quando os juros começam a cair, a remuneração de novas aplicações pós-fixadas tende a acompanhar esse movimento. Isso não significa, porém, que a renda fixa deixe de fazer sentido.

Ela pode continuar cumprindo funções importantes, como:

  • reserva de emergência;

  • recursos destinados a objetivos de curto prazo;

  • redução da volatilidade da carteira;

  • previsibilidade;

  • proteção de parte do patrimônio.

Além disso, renda fixa não significa ausência de risco. Dependendo do produto, podem existir risco de crédito, liquidez, inflação e oscilação antes do vencimento.

Por que as ações ganham atenção quando os juros caem?

A redução dos juros pode favorecer algumas empresas de diferentes maneiras.

O custo de financiamentos pode diminuir, o consumo pode ser estimulado e companhias endividadas podem encontrar condições melhores para administrar suas obrigações.

Além disso, quando a rentabilidade da renda fixa diminui, parte dos investidores passa a procurar alternativas na renda variável.

Mas isso não significa que todas as ações subirão apenas porque a Selic caiu.

Cada empresa possui:

  • situação financeira própria;

  • nível de endividamento;

  • capacidade de gerar caixa;

  • qualidade da gestão;

  • concorrência;

  • riscos específicos;

  • preço negociado no mercado.

Comprar qualquer ação somente porque os juros começaram a cair pode ser tão arriscado quanto investir olhando apenas para uma notícia.

Renda fixa ou ações: é necessário escolher apenas uma?

Não.

Uma carteira pode utilizar renda fixa e ações de forma complementar.

A renda fixa pode ser destinada à reserva, aos objetivos mais próximos e à parte do patrimônio que exige maior previsibilidade.

As ações podem ser utilizadas por quem busca participar dos resultados e do crescimento de empresas ao longo do tempo, aceitando oscilações e o risco de perdas.

Dados divulgados pela B3 mostram que, no primeiro trimestre de 2026, o Brasil possuía 104,8 milhões de investidores pessoa física em renda fixa e 5,6 milhões em renda variável. O valor em custódia cresceu nas duas classes, indicando que diversificação e combinação de ativos são caminhos adotados por muitos investidores. (B3)

A proporção adequada dependerá de fatores individuais, como:

  • objetivos;

  • prazo;

  • situação financeira;

  • necessidade de liquidez;

  • tolerância às oscilações;

  • conhecimento;

  • perfil de risco.

Não existe uma divisão universal que sirva para todas as pessoas.

Como organizo renda fixa e renda variável na minha estratégia

Como mencionei, um tipo de investimento não precisa excluir o outro.

Não vejo necessidade de abandonar completamente a renda fixa ou as ações apenas por causa de uma mudança na taxa de juros ou de um movimento pontual do mercado. Cada classe de ativo pode cumprir uma função diferente dentro de uma estratégia de investimentos.

Na minha carteira pessoal, procuro manter uma combinação entre renda fixa, investimentos de longo prazo e operações de position trade.

Atualmente, a distribuição com a qual me sinto confortável é próxima de:

  • 10% do patrimônio em renda fixa;

  • 10% destinado a operações de position trade;

  • 40% em ações brasileiras;

  • 40% em ações americanas.

Em outras palavras, mantenho aproximadamente 80% do patrimônio em ações, divididas entre o mercado brasileiro e o americano, 10% para operações de position trade e 10% em renda fixa.

Essa divisão, porém, não é uma recomendação e não deve ser simplesmente reproduzida por outros investidores. Ela representa o equilíbrio que, neste momento, considero sustentável e compatível com meus objetivos, experiência e tolerância às oscilações do mercado.

Cada investidor precisa encontrar sua própria combinação.

Esse equilíbrio também pode mudar ao longo do tempo. Quando comecei a investir, sentia-me mais confortável mantendo aproximadamente 80% do patrimônio em renda fixa e apenas 20% em renda variável. Em outro período, adotei uma divisão próxima de 50% em cada classe.

Esse processo de ajuste fez parte da minha evolução como investidor.

Com o aumento do conhecimento, da experiência e da compreensão sobre como eu reagia às oscilações, fui adaptando a carteira até chegar à composição atual.

Mais importante do que copiar uma porcentagem pronta é construir uma carteira que permita manter a estratégia mesmo nos períodos difíceis.

Hoje, posso dizer que me sinto confortável com meus investimentos e durmo tranquilo com a distribuição que escolhi. Para mim, esse é um bom sinal de que a carteira está alinhada com meu perfil atual.

Mas essa tranquilidade não surgiu de uma fórmula universal. Ela foi construída com estudo, experiência, ajustes e autoconhecimento.

A alocação adequada depende dos objetivos, do prazo, da situação financeira, da necessidade de liquidez e da tolerância ao risco de cada pessoa. O que funciona para mim pode não ser apropriado para outro investidor.

A queda da Selic indica o melhor momento para comprar ações?

A Selic é uma informação importante, mas não deveria ser utilizada isoladamente para definir o momento de uma compra.

O investidor também precisa analisar a empresa e o preço que está sendo pago.

Uma companhia pode possuir um bom negócio, mas estar excessivamente valorizada. Outra pode parecer barata, mas enfrentar problemas financeiros ou operacionais que justificam a queda de suas ações.

Por isso, uma decisão de longo prazo pode combinar duas abordagens.

Análise fundamentalista

A análise fundamentalista ajuda a avaliar o negócio.

Ela considera elementos como:

  • receitas e lucros;

  • geração de caixa;

  • endividamento;

  • margens;

  • vantagens competitivas;

  • qualidade da gestão;

  • riscos do setor.

Seu objetivo é ajudar a identificar empresas que atendam aos critérios definidos para uma carteira de longo prazo.

Análise técnica

A análise técnica estuda o comportamento do preço e do volume por meio dos gráficos.

Ela pode ajudar a identificar:

  • tendências;

  • correções;

  • suportes e resistências;

  • movimentos acelerados;

  • regiões relevantes;

  • mudanças no comportamento do preço.

A análise técnica não prevê o futuro e não permite encontrar com certeza o menor preço de uma ação. Sua função é acrescentar contexto à decisão.

De forma simples:

A análise fundamentalista ajuda a entender a empresa. A análise técnica ajuda a interpretar o comportamento do preço.

Como avaliar uma possível entrada em ações?

Em vez de tentar descobrir se “a bolsa vai subir”, o investidor pode seguir um processo mais organizado.

1. Proteja os objetivos de curto prazo

O dinheiro necessário para emergências ou compromissos próximos não deveria depender da oscilação de ações.

Antes de aumentar a exposição à renda variável, avalie sua reserva e suas necessidades de liquidez.

2. Selecione empresas com critérios

Analise o negócio, os resultados, o endividamento, a geração de caixa e os riscos.

Comprar ações significa adquirir uma participação em uma empresa, e não apenas apostar na movimentação de um código na bolsa. (B3)

3. Avalie o comportamento do preço

Depois de encontrar uma empresa interessante, observe seu gráfico.

A ação está em tendência de alta, baixa ou lateralização? Passou por uma valorização muito rápida? Está em correção? Existe alguma região técnica relevante?

Essas respostas não garantem um bom resultado, mas ajudam a evitar decisões baseadas apenas em ansiedade ou euforia.

4. Planeje os aportes

Não é necessário investir todo o capital disponível de uma única vez.

Aportes graduais podem reduzir a dependência de um único momento de entrada, embora não garantam um preço médio favorável.

Também é importante definir limites por empresa e por setor, evitando concentração excessiva.

5. Mantenha uma visão de longo prazo

Ações apresentam oscilações e possibilidade de perdas. A B3 define a renda variável como uma classe em que os retornos não são previsíveis e os preços respondem a fatores econômicos, políticos, empresariais e setoriais. (Bora Investir)

Por isso, o buy and hold exige disciplina, critérios e acompanhamento — não apenas paciência.

Erros comuns durante a queda dos juros

Abandonar completamente a renda fixa

A renda fixa não perde sua utilidade apenas porque a Selic começou a cair. Reserva, liquidez e objetivos de curto prazo continuam existindo.

Comprar qualquer ação esperando valorização

Uma queda nos juros não corrige empresas ruins nem transforma preços elevados em boas oportunidades.

Tentar acertar o fundo da bolsa

Esperar o ponto perfeito pode deixar o investidor paralisado. Por outro lado, investir sem qualquer critério também aumenta os riscos.

Olhar apenas para dividendos

Dividendos são importantes, mas precisam ser analisados junto com lucro, geração de caixa, endividamento e capacidade de continuidade dos pagamentos.

Afinal, renda fixa ou ações?

A resposta pode ser: as duas, desde que cada uma tenha uma função clara.

A renda fixa pode oferecer maior previsibilidade e atender objetivos de menor prazo.

As ações podem contribuir para uma estratégia de construção patrimonial de longo prazo, mas exigem conhecimento, tolerância às oscilações e critérios de seleção.

A queda da Selic pode ser um motivo para revisar a carteira. Ela não deveria ser uma ordem automática para retirar todo o dinheiro da renda fixa e comprar ações.

Mais importante do que tentar prever o próximo movimento dos juros é desenvolver um método para analisar empresas, interpretar preços e planejar aportes.

Aprenda a investir no longo prazo com um método

O Curso de Buy and Hold com Análise Técnica da Titus Invest ensina uma metodologia prática para selecionar ativos e estruturar uma carteira de longo prazo.

No curso, você aprende a combinar os conceitos essenciais da análise fundamentalista com a análise técnica, avaliando tanto a qualidade das empresas quanto o comportamento do preço.

A proposta é desenvolver mais autonomia para tomar decisões, sem depender de matemática avançada, valuation excessivamente complexo ou indicações prontas de terceiros.

A base de análise técnica necessária já está incluída no treinamento.

Conheça o Curso de Buy and Hold com Análise Técnica e aprenda a avaliar empresas, preços e riscos dentro de um processo claro e estruturado.

Caso prefira começar apenas pela interpretação de gráficos, candles, tendências e indicadores, o Curso de Análise Técnica Essencial é a opção introdutória. Ele não é um pré-requisito para o Curso de Buy and Hold.

Este conteúdo possui finalidade exclusivamente educacional e não constitui recomendação individualizada de compra, venda ou manutenção de ativos. Investimentos e operações de renda variável envolvem riscos e podem resultar em perdas.

Alexandre Giacon
Analista de Valores Mobiliários — CNPI-P (Analista Pleno) nº 10271
Sócio e responsável técnico pela Titus Invest

Fontes

  • Banco Central do Brasil — Taxas de juros básicas: histórico, atualização consultada em julho de 2026. (Banco Central do Brasil)

  • Banco Central do Brasil — Comunicados do Copom, junho de 2026. (Banco Central do Brasil)

  • B3 — Avanço dos ETFs destaca evolução do investidor pessoa física na B3, 6 de julho de 2026. (B3)

  • B3 — Ações: características do produto. (B3)

  • B3 Bora Investir — Renda variável: o que é, significado e definição, 22 de junho de 2023. (Bora Investir)